A missão: Entregue os anéis para salvar os dedos!
Hoje vou contar uma história pessoal. Dolorida e dolorosa. Resolvi contar essa história agora porque alguns (espero que muito poucos) empresários talvez passem por situação semelhante. Vou contar à minha experiência ou melhor, para ser bem específico, vou relatar como praticamente assassinei à primeira empresa que criei e quase todo meu futuro.
Estou na terceira iniciativa como empreendedor. Na primeira eu deixei quebrar o negócio, mas não fali. Na segunda experiência à situação foi diferente da primeira, pois eu resolvi sair do negócio por vontade própria logo que percebi que estava perdendo energia física e mental a cada dia que passava. Assim, de forma pensada, busquei alternativas até o momento em que decidi por vender uma parte da empresa e encerrei as minhas atividades no setor.
Vender um empreendimento é uma espécie de divórcio consensual. Quando isso é associado ao encerramento das atividades torna-se o caminho menos traumático, mesmo sendo um processo burocrático lento, longo e oneroso. Também por isso que à experiência da falência (sem falir) é frustrante, degradante e tortuosa porque fica faltando um momento final.
Na experiência de falir (sem falência) eu perdi os anéis e machuquei profundamente os dedos. Demorei demais a entender o cenário em que estava inserido. As marcas perduram e me fazem lembrar das lições. Lições do que não vi, pois não sabia para onde olhar. É sobre essas lições que vou escrever agora.
É um texto um pouco diferente. Vou fazer um comparativo descrevendo o que eu vivia naquela época e o que aprendi, tempos depois, quando num processo de conhecimento pessoal foram analisados alguns pontos do passado, sob uma nova perspectiva, e os reflexos disso como vivência adquirida. Espero que ajude quem precisar de ajuda.

O relato é específico e centrado no contexto das dificuldades criadas sem pormenorizar o que motivou o problema (isso talvez ainda vire um livro). Para auxiliar no entendimento do texto vou usar “dono” para definir o passado e vou utilizar “mentor” para mostrar uma opinião objetiva, um entendimento maior sobre as ações ou atitudes.
dono > Como todo pequeno empresário eu respondia pelo financeiro, administrativo e comercial. A partir de um determinado momento, com 3 para 4 anos de funcionamento da empresa e eu com 27 anos de idade, todo dia era uma aventura quase épica com alguns momentos de alívio imenso por ter conseguido efetuar um pagamento. Misturava tudo e não usava nem agenda, não lia nada além de jornal. Buscava ansiosamente uma forma de prospecção de um novo negócio na expectativa de conquistar um grande cliente, o famoso salvador da pátria, mas de prático fazia quase nada.
mentor > Não foi formalizado nenhum plano de negócio; não foi elaborada uma estratégia clara; não foi efetuado nenhum planejamento comercial; não existia uma rotina financeira e, até por isso, à busca pelo salvador da pátria, ou o pequeno conforto ao efetivar algum pagamento, apontavam para uma situação geral muito perigosa. Aos 27 anos de idade à confiança era apenas na capacidade de resolver problemas. Não foi aberto um único livro por 8 anos e, assim, ficou evidente que à instrução recebida na faculdade não foi ampliada com mais nada, principalmente algo que trouxesse alguma nova capacidade de gestão.
dono > Em todos os anos de existência da empresa eu nunca tive um valor definido como ‘pró-labore’, o famoso salário do empreendedor. Eu pegava dinheiro ‘dentro’ dos gastos da empresa e não sabia exatamente quanto.
mentor > Esse erro cria uma dificuldade de perceber à situação geral porque demora para o aperto chegar no dinheiro pessoal. O que faltava, faltava à empresa e não exatamente ao dono. Por mais que o gasto fosse limitado ao que à geração de caixa, do pequeno negócio, produzia essa limitação era menor para o dono do que para a empresa. Isso não permitiu sentir a dificuldade crescer e criou uma dupla fantasia: 1ª) que a empresa não gerava lucro; 2ª) que o dono não recebia dinheiro do negócio.
dono > Era comum eu fazer concessões aos clientes por medo de perdê-los, pois os clientes pagavam pontualmente. Praticamente abdiquei de apurar os custos da operação. Qualquer reclamação de cliente era considerada como erro interno independente de qualquer análise. O que importava era não ter reclamações ou correr qualquer risco de perder um contrato. Quando mais próximo do quase fim eu chegava mais essa pressão era sentida.
dono > O primeiro boleto não pago que foi protestado veio como um soco no estômago. Fiquei sem fechar os olhos por 2 dias e, depois, não consegui dormir direito enquanto não paguei a conta no cartório e limpei o nome da empresa, inclusive com certidão negativa de débito. Esta luta, em seguida, virou uma rotina diária por bastante tempo. Algumas vezes um boleto não pago era protestado ou um cheque sem fundos era devolvido, mas a reversão ocorria em pouco tempo, até que chegou o fatídico dia do primeiro cheque sustado. Parece que nesse instante as coisas mudaram de patamar e eu aceitei que à situação seria diferente. Eu não tinha mais a obstinação em resolver rapidamente.
dono > Passei a ser totalmente tolerante com falhas de funcionários. Faltas ao trabalho ou danos aos equipamentos e até perda de produtos eram desconsideras, esquecidas ou perdoadas.
dono > Deixei de pagar os impostos no vencimento. No primeiro momento pagava em atraso, mas logo deixei de pagar os impostos de forma total.
dono > Com as sucessivas decisões erradas eu acabei consumindo um apartamento de 2 dormitórios; o meu crédito todo; o crédito de um familiar próximo; além de pegar empréstimo com um parente de outro familiar. Tudo deu errado nessas operações.
dono > Na fase de tentativa e erro eu desativei uma empresa, aquela que não fali, e constituí outra (essa era uma alternativa muito usada naquela época) em nome de familiares.
dono > Dediquei um tempo excepcional para desenvolver um sistema informatizado de controle operacional para facilitar o funcionamento da parte vital do negócio e facilitar o atendimento aos clientes. Obtive êxito, mas não adiantou nada.
dono > O final do empreendimento chegou quando recebi uma proposta de compra dos contratos. A proposta incluía manter toda a equipe. Aceitei. Por 90 dias estive presente e acompanhei à transição.
dono > Por muito tempo sofri por não saber como eu havia falhado e deixado os acontecimentos controláveis tomarem à dimensão absurda que tomaram.
Em linhas gerais essa é uma das formas de assassinar uma empresa. Existem outras é evidente, mas uma coisa é bem clara: nunca, jamais, em momento algum uma empresa busca o próprio fim. A empresa é conduzida para isso.
Eu sou o dono que viveu tudo isso e, também, sou o mentor que foi adquirir o conhecimento necessário e hoje tem à experiência para encontrar soluções; experiência que fez uma falta danada naquele período. Como eu queria ter ouvido conselhos; como eu precisava ter ouvido palavras fortes com sinais de alerta. Como eu precisava pensar no futuro como um todo e não apenas em uma parte.
Conte comigo!






